Fome

1º de julho de 2026

Quem come não ciuma a comida. Não teme (se não houver extrema escassez) que a comida vá para a boca de outrem, que abandone o ser faminto por livre e espontânea vontade, que o rejeite. Não, quem come deseja a comida, sacia-se e logo volta para o próximo afazer. Às vezes, porém, a comida nos faz mal. Pode-se até passar alguns dias em jejum. Mas a necessidade nos faz voltar a comer — sem nenhum ressentimento pelo período de escassez. Nem de quem come, nem da comida.

Todos os dias (ou quase todos os dias), como. Às vezes demais, às vezes de menos. De tempos em tempos, sinto falta da comida. Mas assim que possível — e assim que me permito — sacio-me. Ocasionalmente, me esqueço de comer — e nem por isso odeio a comida. Nem por isso, aliás, a ela sou indiferente. Amo a comida na medida exata em que meus instintos animalescos me forçam a tal. Há, no entanto, outros prazeres, afazeres, quereres. Mas a comer sempre torno — mesmo depois de horas sem pensar nisso.

Assim sigo. Sacio-me, sem no entanto me empanturrar. Consumo, sem no entanto me comprometer. Amo, sem no entanto me obcecar. Quanto à comida, me sinto bem, não é causa de tristeza. No que tange à fome — sou feliz.