Desacordo

3 de junho de 2026

Da melancolia que me consome, discordo. Desprezo qualquer um tão fraco e incapaz de lidar com seus próprios sentimentos. Como pode alguém se suprimir tanto em prol de alguém inegavelmente tão irrelevante quanto aquele que se submete?

Se discordar de si mesmo bastasse para mudar, há muito já seria outro. Mas não o basta. Sigo sendo o sensato que nasceu no corpo de um idiota. Sei o que devo fazer, como agir, no que pensar, no que focar. Mas não o faço devido aos instintos nojentos com os quais esse meu corpo defeituoso veio caprichosamente equipado. Desprezo tudo isso, e não só, mas também tudo e todos ao meu redor, que só me aborrecem na sua evidente ilusão e resignação àquilo que lhes fala a natureza inata de seus seres vis.

Maldito seja o acaso por ter feito surgir a consciência e, pior, a autoconsciência. Esta não serve a propósito algum, e é a causa de tudo que é hediondo e sofrido. Bem e mal, belo e feio, sagrado e profano, nada disso existiria não fosse o execrável advento de seres que pensam sobre si mesmos.

Quando morrer o último ser humano, todo o mal, enfim, deixará de existir.