Sidarta, Hermann Hesse
6 de junho de 2026Hermann Hesse parece ser um autor dado a explorar uma ideia na forma de ficção. De seus livros importam menos o enredo, personagens e diálogos do que o ideal embutido ao longo da obra. O que não deixa de ser um tanto irônico, dado o desprezo do personagem Sidarta pelas ideias, palavras (que, segundo ele, não se distinguem das ideias) e, no geral, doutrinas.
Além do mais, Hesse não deixa de expor sua "doutrina" nesse livro. É de qualquer forma um tanto peculiar uma doutrina que defende, ela mesma, a inutilidade das doutrinas — por assim dizer, defende o não defender. É compreensível, ao final do livro, a confusão de Govinda às palavras do amigo: há um quê de paradoxal no simples fato de Sidarta sequer exprimir seus pensamentos de fato um tanto estranhos, ainda que coerentes para o leitor.
Mas há sentido nesses pensamentos. "O oposto de cada verdade é igualmente verdade" é uma afirmação, sem dúvidas, forte e que carrega consigo — de novo, paradoxalmente — um grau de sabedoria. A "verdade", tão difícil de ser obtida e defendida, talvez há de ser justamente algo sobre o qual não se possa afirmar o contrário. Não no sentido raso de que, afirmando-se o contrário da "verdade", se estaria mentindo. Mas no de não ser possível, logicamente, se afirmar o contrário da "verdade" sem se estar dizendo, ainda, a verdade.
É nesse paradoxo que a doutrina que não doutrina reside. E no fundo, tudo o que Hesse quer dizer, é que o caminho é individual, de cada um consigo mesmo. É preciso viver e vivenciar o sofrimento para enfim encontrar o percurso que há de levar à superação do sofrimento. Nada que ninguém disser, nem mesmo um Iluminado, permitirá a outrem chegar lá. Em vão tentam os pais (como tentou Sidarta) proteger os filhos dos tormentos do mundo, só estão postergando a guerra interna que há de inevitavelmente estourar no interior de seus progênitos. Poucos, no entanto, muito poucos, viverão para ver o fim dessa guerra.
Hesse, de certa forma, ocidentalizou em Sidarta o budismo com seu toque nietzschiano e individualista. Mas o fez sem suprimir o budismo, sem negá-lo, nem afirmá-lo. Todavia receio que uma doutrina para indivíduos — ainda que sendo uma doutrina "sem doutrina" — não resolve os problemas da humanidade. A jornada pode ser de cada um, mas seguimos tendo uma sociedade para manter funcionando.